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Full text of "Aspectos da tipografia em Portugal"

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ARTUR PEREIRA MENDES 




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BOA— Imprensa Nacionai 



ASPECTOS 

DA TIPOGRAFIA 

EM 

PORTUGAL 



CONFERÊNCIA REALIZADA 
NA IMPRENSA NACIONAL 
DE LISBOA 
EM 6 DE ABRIL DE iqiS 



Por 

NORBERTO de ARAÚJO J ^ ' 

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ARTUR PEREIRA MENDES ( ^ ) 



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LISBOA — Imprensa Nacional — 1914 



Minhas Senhoras e meus Senhores; 



O assunto escolhido para motivo da nossa con- 
ferência foi o da Tipografia em Portugal, desde 
o seu início até a actualidade, sob o duplo aspecto 
histórico-artístico. Falando numa casa de gráficos, 
pois que gráficos são todos os empregados deste 
estabelecimento desde S. Ex.^ o administrador 
geral até o mais modesto dos empregados me- 
nores, o assunto não nos parece mal apontado. 
Não temos a pretensão de dar-vos da tipografia 
uma nota completa e absolutamente incontestá- 
vel. O assunto é vasto, por vezes bastante escuro, 
e não é nos apertados limites duma conferência 
que tamanha tese pode ser francamente debatida. 

As origens da tipografia são de sobejo conhe- 
cidas por quantos tem a amabilidade de nos 
escutar. Não há gráfico algum que não tenha den- 
tro do mais recôndito da sua alma, este nome — 
Gutenberg, escondido, rodeado de lenda e de 
perfume. Tal nome representa no espírito do 
mais humilde obreiro do livro a encarnação lím- 
pida e iniludível dum génio, dum inventor célebre, 



i 

1 



cuja história e representação histórica ele ignora 
porventura, mas cuja idea a sua intuição nitida- 
mente compreende e perfeitamente aviva. 

A arte revelou-se no homem desde o princí- 
pio dos mundos, no confundível início das civili- 
zações primitivas como uma necessidade orgânica 
de vitalidade,' representativa do seu esforço e da 
sua energia, acompanhando a evolução do seu 
espírito e do seu pensamento. Sentindo uma ne- 
cessidade ainda maior de traduzir as suas ideas, 
perpetuando-as de qualquer forma, o homem 
utilizou o hieróglifo, que, esculpido na base dos 
templos e dos monumentos, dava a povos um 
dia porventura chegados doutras paragens, a 
idea perfeita e consubstanciada de quanto valia 
o seu génio, e a que altivas façanhas o seu esforço 
se havia ligado. Ultimamente, Buy, Prisse de 
Avernes, Mesparès e outros sábios, dedicando- 
-se aos estudos desses hieróglifos, conseguiram 
bases autênticas c positivas para a história dos 
povos antigos. Elevaram-se depois os templos, 
as catedrais, de naves esplêndidas, de todas as 
religiões e seitas, onde os povos liam, com as 
almas em êxtase, uma série enorme de feitos de 
povos invencíveis e gloriosos. 

Entretanto o génio do homem elevava-se. Atra- 
vés do nebuloso dos séculos o espírito humano 
atingia, por vezes, as mais altas regiões do Belo, 
do perfeito, do imortal. Todavia os cantos dos 
poetas, a prosa dos estóicos, dos pensadores, 
dos filósofos, dos homens das repúblicas antigas, 
o heroísmo dos espartanos, o grande, o imenso 
fulgor dos legisladores, tudo, tudo isso permane- 



cia semi-oculto, desconhecido no ecoso dos claus- 
tros dos conventos, à superfície dos pergaminhos, 
nos manuscritos dos frades, dos senhores, dos 
reis. O saber, alimento da inteligência e do ta- 
lento, essa aurora boreal que nas gélidas planuras 
da vida nos ilumina e guia, o conhecimento, a 
erudição, esse como que olhar de águia com que o 
homem hoje ilumina de antípoda a antípoda a orla 
das florestas virgens e o coração das pequenas 
flores excêntricas, a palavra cristalizada era privi- 
légio duma raça de grandes, que lançavam de ge- 
ração em geração fortunas em livrarias pesadas, 
manuscritos clássicos, bibliotecas preciosas, que 
só eles tinham, e que só eles podiam ler. 

Tal era no começo do séc. xv o estado repre- 
sentativo da sciência humana. Seria necessária 
uma revolução da mecânica que preparasse os 
espíritos para a revolução do pensamento. Foi 
então que surgiu a Imprensa, esse grande beijo 
com que Gutenberg despertou a humanidade 
adormecida, quebrando o longo silêncio a que 
o Universo estava sujeito, trazendo, como con- 
sequência a elevação da verdade, com o progresso 
das letras, das sciências e das artes. 

Gutenberg inventou primeiramente os caracte- 
res móveis em madeira. Sucedeu isto no princípio 
da segunda metade do séc. xv, no ano de 1450. 
Concisa data a que a humanidade deve o ser 
grande. 

Tendes todos os conhecimentos indispensáveis 
do início da tipografia. Farei apenas algumas 
referências a tam interessante assunto. 




A invenção da tipografia, que é a sintetização 
da imprensa, resolvida e ultimada pelo emprego 
do tipo móvel, é por alguns suspeitos historiado- 
res atribuída a Lourenço Goster, antes de 1460. 
Existem do ano de 1400- 1440 a Gramática de 
Donat, a Bíblia dos pobres, a História de S. João 
Baptista e o Speculum humanae salvationis. Estes 
livros são, no emtanto, exemplares de calcografia 
e xilografia. Goster, cuja autenticidade chega a 
ser posta em dúvida, seria, quando muito, um 
inspirador da obra de Gutenberg, mas só por 
fortuito acaso e nunca por influência de génio 
próprio. A imprensa seria mesmo conhecida dos 
chineses, muitas dezenas de anos antes de na 
Europa começar a ser praticada. Em 93*2, se- 
gundo Klaproth, propôs-se à Academia a revisão 
dos King, na Ghina, e gravá-los em madeira. 
Os caracteres móveis foram descoberta de Jean 
Gutenberg, fidalgo de Mogúncia, da casa dos 
Sorgelochs, que em segredo imprimiu os primei- 
ros liVros, sem data nem designação de local ou 
autor. Fundou depois, publicamente, uma tipo- 
grafia em Strasburgo, e mais tarde, associado 
com Faust ou Fust, banqueiro, estabeleceu em 
Mogúncia uma tipografia. A arte nascente apri- 
morou-se e desenvolveu-se. Gutenberg não pros- 
perou porem ^ e, atraiçoado pelo sócio Faust, se 
quis continuar a dar ao mundo scentelhas do seu 
génio teve de o fazer a ocultas. Faust associou- 
-se a Schoeífer, indivíduo ainda novo, activo, in- 
teligente e habilidoso, que substituiu o chumbo 
por metal mais resistente, formando a liga ainda 
usada, obteve a tinta oleosa e inventou punções, 



7 

o que permitiu fundir a letra por matrizes. A Bí- 
blia Ma-{arina parece ter sido o primeiro livro 
impresso em caracteres móveis em 1450-1452. 
Ter-se-iam seguido umas cartas de Nicolau V, 
exortando à guerra contra os turcos, e um alma- 
naque, não citando uns salmos, primitivamente 
dados à luz por Gutenberg. 

Em 1457 Faust e Schcefíer, associados, publi- 
cavam um saltério, impresso em pergaminho, 
fazendo então a declaração de que tal trabalho 
não era feito à mão, mas por yneio dum engenhoso 
processo. Seguiram-se as perseguições, revoltas 
de iluminadores e de copistas, e outras conflagra- 
ções, assuntos interessantíssimos que o curto es- 
paço de tempo da nossa prelecção não permite 
analisar. 

Em 1462 Mogúncia foi tomada, e os tipógrafos 
€spalharam-se então pela Itália, baixa Alemanha 
e outros países. Seria fastidioso dar-vos as datas 
do início da tipografia nos diversos países. Dar- 
-vos hei a nota das principais cidades, que tal- 
vez — o assunto não está seguramente resolvido 
pelos sábios — tivessem recebido a tipografia 
seguidamente: 

Subraco (Itália) 14G5 

Roma e Colónia 1467 

Veneza e Paris 1469 

Lion 1473 

Londres 1474 

Barcelona 1475 

Estas datas, como de resto todas as apontadas 
em obras de renome e insuspeitas, são mais ou 



8 



n 



menos susceptíveis de erro. Vou decididamente 
deixar o assunto, e devo dizer que, no respei- 
tante a autores, obras primitivas, cronologia, não 
tirámos ainda das muitas obras que temos ma- 
nuseado uma conclusão séria, única, iniludível. 

Numa obra histórica, editada em Paris, em 
i83o, intitulada Recherches historiques et criti- 
ques siir Vétahlissement de lart typographiqiie 
en Espagne et Portugal, dans le qimi^ième siècle, 
de Mr. Née de la Rochelle, lêem-se interessan- 
tíssimas notas que podem auxiliar o motivo da 
nossa conferência. Aí se sustenta, com uma ener- 
gia e decisão que anos e anos de estudo defen- 
dem, a entrada da tipografia na península his- 
pânica por Palentia, reino de Lião, em 1470. 
Seguem-se: 

Valência 1474 

Saragoça 1475 

Sevilha 1477 

Barcelona 1478 

Lérida 1479 

Legorbe 1479 

Salamanca 1481 

Zamora 1482 

Toledo 1486 

Múrcia 1487 

Lisboa 1489 

Leiria 1492 

Braga 1494 

Madrid 1499 

No que respeita à tipografia na Espanha dei- 
xamos a Mr. de la Rochelle as suas afirmativas 



e abandonamos o assunto, fa/.cndo apenas um 
leve reparo sobre a época tardia da entrada da 
arte de Gutenberg na capital espanhola. 

Vou fazer algumas considerações respeitantes 
à entrada da tipografia em Portugal, resumindo 
quanto possível a informação, a nota histórica 
€ apontamento cronológico. Este ponto tem sido 
debatido largamente, contraditoriamente, por sá- 
bios e investigadores notáveis, que tem tratado 
da história da tipografia portuguesa. António Ri- 
beiro dos Santos, erudito e douto historiador, 
Tito de Noronha, que, cremos, foi tipógrafo na 
Imprensa Nacional de Lisboa, Freire de Car- 
valho, Camilo, Herculano, Mendes Sylva, escri- 
tor espanhol, e outros bibliógrafos referem-se 
ao assunto em obras que temos compulsado. 
Ribeiro dos Santos defende a entrada da tipo- 
grafia na península por Leiria, e funda-se para 
garantir tal audaciosa conclusão numa resposta 
afirmativa do matemático Pedro Nunes, recolhida 
por Pedro Afonso de A'asconcelos na Harmo- 
nia Rubricarum Júris Canonis (Coimbra, i588). 
Umas declarações, que o Conde da Ericeira, 
D. Luís de Meneses, afirmou ter lido nas obras 
do infante D. Pedro, defenderiam ainda aquela 
asserção se um pavoroso incêndio não tivesse 
destruído a livraria onde tais obras existiam ou, 
no caso do incêndio não se ter dado, se essas 
declarações não fossem três vezes contraditórias, 
e falhas de autenticidade. A afirmativa do ilus- 
tre arcadíaco ê pois muito vaga e incerta. 

Freire de Carvalho, Inocêncio da Silva, Men- 
des Svlva e outros defendem esta conclusão 



10 



avançada. CamilOj Herculano e Tito de Noro- 
nha contraditam os estudos dos citados investi- 
gadores, não resolvendo todavia o assunto; Tito 
de Noronha, porem, examina melhor a questão, 
define-a em termos mais precisos, e assenta como 
falso o trabalho de Ribeiro dos Santos. Num 
Boletim da Sociedade de Geografia, de 1881, 
assinada por Buckman, aparece esta comunica- 
ção que leio: 

Em 1460 alguns negociantes desta cidade de Nurem- 
berg informaram o Governo de Portugal da descoberta 
e utilidade da imprensa feita por Gutenberg e Faust, em 
Mayence. Um cardeal ou prior do grande convento de 
Coimbra mandou vir em 1465 os primeiros tipógrafos de 
Nuremberg para Portugal, onde eles imprimiram de 1465 
a 1473 num convento os autores gregos e latinos e livros 
eclesiásticos. Estes impressores seriam, segundo uma ve- 
lha crónica, Emanuel Sermons, de- Nuremberg, e Cristó- 
phe Soll, de Atdorf, um burgo feito de Nuremberg, ensi- 
naram muitos discípulos e a tipografia espalhou-se em 
Portugal. 

O Sr. Dr. Teófilo Braga, infatigável trabalhador 
das letras, perante cujos trabalhos de esforçada 
energia e levantado merecimento eu me inclino e 
me sinto infinitamente pequeno, tratou o compli- 
cado assunto no seu tomo A Imprensa em Portugal 
e seus monumentos. Não tem ele por seguramente 
rigorosa a informação que li; não apresenta, con- 
tudo, a resolução do emaranhado problema, dei- 
xando-nos a mesma impressão vaga e obscura 
do assunto. Escritores notáveis estrangeiros, fun- 
dados em Ribeiro dos Santos, defendem Leiria 
como berço da tipografia, no ano de 1453. ;Sim- 



II 



plesmcntc absurdo! Nessa data ainda a tipografia 
era quási um segredo dos seus iiwentadores. Isto 
é, atínal, assunto mais de gabinete que de tribuna, 
questão mais de livro que de conferencia e.eu não 
desejo, no que respeita a tal, prender demasia- 
damente a atenção du nosso amável auditório. 
A tipografia entrou em Portugal, seguramente, 
com documentos autênticos, por Lisboa. O Pcn- 
tateuco Hebraico, impresso por Samuel Zora e 
Raban, em 1^89, comprova esta afirmativa. Não 
obstante, existem algumas obras que, segundo 
vários homens de estudo, admitem a tipografia 
em Lisboa cm i^cSi. Em 1490 imprimiu-se em 
Lisboa o Breviário Eborense. O documento mais 
antigo, atestando a tipografia em Leiria, é o al- 
manaque de Salomão Zacuto, impresso em 1492, 
por Mestre Ortas. Braga foi a terceira cidade 
portuguesa que recebeu a tipografia ainda no 
séc. XV (1494). Seguiram-se no séc. xvi: Setúbal 
em 1609, Évora em i5i2 e Coimbra em i5i7, 
onde floresceu e se desenvolveu no convento de 
Santa Cruz. No Porto apareceu em 1640, com 
o Espelho dos casados, de João de Barros. Foram 
os portugueses que levaram a tipografia para o 
Oriente e para o Brasil, onde chegou muito tarde, 
em 1747. 

A tipografia hebraica foi a que predominou 
em Portugal, e que lloresceu e se manteve em 
grande esplendor até a expulsão dos judeus em 
1496, data em que começou a declinar a inten- 
sidade do seu brilho. Os primeiros mestres im- 
pressores hebraicos foram Rubizorba, Racheo 



12 

Eliezer, Raban Eliezer e Mestre Ortas, que al- 
guns historiadores pretendem que tenha sido es- 
panhol. A tipografia latina substituiu com grande 
desenvolvimento a tipografia judaica. A tipografia 
portuguesa acompanhou, se bem que com menos 
fulgor, a latina. Eram os próprios estrangeiros, 
impressores de fama, contratados para exercer 
a nobre arte de Gutenberg quem maior protecção 
dispensava à tipografia nacional. No séc. xv im- 
primiram-se em Portugal 900 obras, nas seguin- 
tes localidades: 

Lisboa 5o3 

Coimbra 282 

Braga 22 

Évora 46 

Almeirim 2 

Alcobaça i 

Setúbal 2 

Sernache i 

Ultramar 8 

Outras 33 

Leiria, como vedes, não figura, porque a tipo- 
grafia só acidentalmente aí teve representação, 
porventura nos prelos portáteis que percorriam 
o país, e cuja produção ocasional e precipitada 
devia ter contribuído para o confuso estado em 
que se encontra a história exacta da tipografia 
portuguesa. Das 900 obras im.pressas no séc. xv 
406 referiam-se a estudos de teologia, 160 a li- 
teratura e poesia, 127 a poligrafia, 10 1 a histó- 
ria, 106 a sciência, direito, etc, sendo impressas 
em português 640, latim 270, castelhano 96, 
porque as obras compostas em hebraico são 



i3 



consideradas como documentos iniciais e com- 
provativos da história da tipografia. A impres- 
são das obras cm latim teve começo depois 
de 1490. 

Valentim de Morávia ou \'alentim F^ernandes 
e Nicolau de Saxónia (alemães) imprimiram em 
Lisboa a Historia do muf nobre Emperador 
Vespasiano, e anteriormente a célebre e famosa 
Vita Cristi, umas das mais aperfeiçoadas obras 
da tipografia primitiva, considerada como uma 
maravilha, e que foi mandada fazer a expensas 
da rainha D. Leonor, viúva de D. João 11, que 
ainda no séc. xv concedeu a Morávia o título 
de escudeiro de sua casa. Estes dois célebres 
artistas tioresceram até o fim do primeiro quar- 
tel do séc. XVI. Surgiu finalmente a tipografia 
grega, e com ela uma época esplendorosa para 
as literaturas nacionais. 

O séc. XVI é o maior século da História. E a 
época da Renascença. O génio grego revelou- 
-se neste século no aspecto duplamente artístico 
e scientífico, nas criações belas dos espíritos de 
literatura antiga, dos seus filósofos, dos seus 
sábios, dos seus pensadores, despertando para 
o bom gosto e puro culto da Arte. Os clássicos 
ressurgiram, ou melhor surgiram, porque eles não 
eram conhecidos senão dos sábios, dos privile- 
giados, dos catedráticos, e esses mesmo teriam 
deles uma noção errada e incompleta, por isso 
que os erros dos copistas, a dificuldade da leitura 
dos manuscritos e o perigo de sua divulgação 
não permitiam aos próprios sábios e catedráticos 



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a análise ampla c livre das suas doutrinas. Lutero 
conhecia mal as leituras de Aristóteles, e foi 
através da influência da tipografia que os sábios 
e defensores da revolução reformista puderam 
melhor defender e fixar as suas opiniões. A re- 
nascença do séc. XIII, uma renascença mística de 
religiosos e de ignorantes, iniciada às apalpade- 
las, caiu vencida pelas perseguições religiosas, 
e em seu lugar, protegida pela maravilhosa des- 
coberta de Gutenberg, surgiu a Renascença do 
séc. XVI, que apresenta diversos característicos 
do génio europeu. É a renascença italiana essen- 
cialmente artística e filológica, a francesa com 
a paixão do helenismo, a cultura da arte pelo 
belo, a disciplina de gosto, e a alemã, com a 
preocupação das reformas sociais, através do es- 
pírito literário. 

Surgiram três grandes invenções : a bússola que 
divulgou os mares, o telescópio que divulgou os 
astros e a imprensa que divulgou os textos. Por- 
tugal ajudou consideravelmente a Renascença, 
emancipado da ignorância que o espírito torvo 
da igreja impunha e defendia, recebendo cari- 
nhosamente a imprensa e aproveitando o gosto 
pela literatura latina dos clássicos que Roma 
concedia, esforçadamente. Foi assim que come- 
çaram a ser conhecidas as obras de Homero e 
Píndaro, de Anacreonte, o divino poeta grego, 
comentadas e traduzidas por Sá de Meneses e 
António Ferreira. André de Resende esclarecia 
os aforismos de Hipócrates e de Galeno, trans- 
ladava-se Epíteto e Aristóteles, começaram a 
ser traduzidas as obras de Lucrécio que filo- 



ID 



sofava em verso as cousas da Natureza com a 
mesma facilidade com que hoje uma chusma de 
filósofos verseja em filosofia. As épicas estrofes 
assombrosas do poeta de Mântua, as suas doces 
Geórgicas, as Bucólicas, as Éclogas, os estilos 
de Cícero, as transcendências de Demóstenes, 
as profundezas de Plutarco, Plínio, das Antolo- 
gias, as maravilhas de Tito Livio, Xenofonte, 
Ovídio, etc, todo o saber infinito, toda a alegria 
estranha e inexplicável que provêm do conheci- 
mento das literaturas antigas da Grécia e Roma, 
os portugueses começaram a sentir através das 
límpidas fulgurações da arte tipográfica em Por- 
tugal. 

Foi nesta labuta febril e entusiástica, quando 
a Europa enebriada pelo brilho da Renascença 
lutava na Germânia imperialista com as doutrinas 
de Lutero, quando a civilização se distraía na 
consulta das novas interpretações dos problemas 
helénicos, que os portugueses entraram a cami- 
nhar mar em fora, sozinhos, à descoberta de 
mundos novos, donde trouxeram as maiores fon- 
tes de riqueza; dando a nota de quanto valia o 
seu esforço, o sentimento renovado da sua na- 
cionalidade. Na literatura e arte quinhentistas o 
sentimento estético português desabrochou. No 
teatro com Gil Vicente, o inimitável mestre Gil, 
na arquitectura com os Jerónimos, revivescendo 
com a ornamentação do gótico-florido e dos pro- 
dutos do Oriente, que as descobertas maríti- 
mas transportavam. Acompanhando toda esta 
grande manifestação de vida, a tipografia por- 
tuguesa caminhava brilhantemente, animando os 



estudos e seguindo o senso crítico e íilosófico da 
humanidade. 

Vou falar-vos da tipografia sob o aspecto pro- 
priamente técnico-artístico dos seus desenhos e 
dos seus materiais. O assunto é dos mais inte- 
ressantes e apreciáveis que conheço, e lamento 
não vos poder dar a nota exacta do seu valor e da 
sua importância histórica. No séc. xv predominou 
na imprensa o tipo gótico em todas as suas ma- 
nifestações. Este desenho, como o usavam os dis- 
cípulos de Faust e de Schceífer, manteve-se até o 
meio do séc. xvt, aprimorando-se e renovando-se. 
O tipo mais grosso encontra-se na Vita Cristi, e 
o mais miúdo no Almanaque de Zacuto. Houve 
também um desenho rabínico, dos hebreus, quási 
recto, sem curvas, e um tanto rude. Existem em 
Portugal alguns documentos com este tipo. 

O papel era branco e bem fabricado, talvez 
imitado pelos judeus dos chineses, povo iminen- 
temente civilizado, a quem devemos tintas, e 
outros produtos de indústria. No Almanaque, de 
Leiria, e na Historia do Emperador Vespasiano 
o papel é pouco claro, mesmo baço; na Vita 
Cristi, porem, é bastante liso, corpulento e muito 
branco. Não havia letras iniciais, que eram dese- 
nhadas pelos calígrafos. Os copistas e os ilumina- 
dores encontraram então na iluminura motivo 
para abrandar as suas primeiras iras contra a 
tipografia. Os melhores calígrafos eram os hebrai- 
cos. Os títulos e ornatos foram depois a encar- 
nado, dum tom muito vivo, alegre e resistente. No 
séc. XVI predominaram, alem do gótico que se 



^7 



manteve até meio, o tipo romano com os seus 
derivativos, o veneziano, o toledano, proveniente 
da letra manuscrita do séc. xii, e o tipo redondo 
do célebre João de Spira. 

A arte grega por natural ligação com a sua 
literatura, devido à influência da sua nunca apa- 
gada vitalidade — a vida na arte não morre — 
transitou naturalmente para a tipografia, para o 
seu ornato e desenho. O tipo romano foi pouco 
a pouco substituindo o gótico, que actualmente 
apenas se usa na Alemanha, por um destes tra- 
dicionalismos inúteis e forçosos que caracterizam 
bem o povo germânico. Vê-se nas Décadas da 
Ásia, de João de Barros e Diogo do Couto, de 
i553, e noutras anteriores. O desenho itálico- 
-cursivo de Aldo Manúcio, célebre impressor ita- 
liano, foi usado em Portugal reservadamente. 
Na primeira metade do séc. xv usou-se em Santa 
Cruz de Coimbra. Este desenho constituiu o luxo 
da época, com a sua lenda de protecção do Vati- 
cano, a bênção de Sua Santidade o Papa Leão X, 
os seus escândalos de rainhas, e a sua introdução 
nas alcovas dos régios palácios. 

No começo do séc. xvii entrou a aparecer em 
Portugal o elegante tipo elzeveriano, proveniente 
duma das casas dos famosos Elzevires, impres- 
sores e livreiros, estabelecidos em Leyde e Haia, 
notáveis gráficos holandeses, cuja actividade se 
prolongou a mais de três gerações, e que são 
uma autêntica e legítima glória da tipografia fla- 
menga. Não foi todavia nenhum dos Elzevires 
o inventor dos caracteres elegantíssimos, que 
nós hoje usamos, tipo dum desenho tam pro- 



i8 



porcional, um lançamento de linha tam feliz e 
delicado, de uma aproximação de haste tam ele- 
gante e exacta. O célebre gravador Van-Dick, 
holandês, foi quem abriu as linhas do caracte- 
rístico e fino tipo da casa de Luís e Daniel Elze- 
vir. O genial gravador só depois de desaparecido 
deu ao mundo gráfico a nota autêntica da sua 
sensibilidade artística. 

A tipografia decaiu um tanto em Portugal no 
séc. XVII. Não me referirei a ela. Subsistem como 
documento dessa época alguns volumes dos Lu- 
síadas, de Luís de Camões, denotando um certo 
aperfeiçoamento tipográfico, saídos dos prelos de 
livreiros e impressores régios. Na obra de Venân- 
cio Deslandes, Documentos para a história da 
tipografia em Portugal, nos séc. xvi e xvii, en- 
contra-se a nota exacta dos principais gráficos da 
época. 

Vou falar-vos da renascença artístico-scientííica 
do séc. xviii, e do desenvolvimento da arte tipo- 
gráfica no reinado de D. João V. Com a subida 
ao trono do Rei Magnânimo, tam pródigo em 
festins' e esbanjamentos, como protector de pro- 
gresso e fomentador de iniciativas, as letras e 
os bons livros tomaram de assalto a sociedade 
portuguesa, e um renascimento intelectual se ope- 
rou no país. A tipografia, graças ao amor sem- 
pre crescente pelos estudos e pelos bons livros, 
tomou um vigoroso impulso, entrando a refor- 
mar-se o tipo da letra, a aproximarem-se as edi- 
ções, a substituírem-se as antigas fórmulas grá- 
ficas. Entre os impressores régios distinguiram-se 



19 

José António da Silva, da Academia Rial de His- 
tória, obra do rei D. João V. 

Em 1732 estabeleceu-se em Lisboa uma oficina 
de gravura, sob a direcção de J. deMleneuve, fun- 
didor, que fez publicar um espécime. Em 26 de 
Agosto de 1756 era publicado um decreto, que 
autorizava a admissão por 10 anos de tipo e ma- 
terial gráfico, livre de direitos. O renascimento 
do séc. XVIII, iniciado no nosso país sob os aus- 
pícios do Rei Magnânimo, tem documentos fla- 
grantes da sua existência: sob o ponto de vista 
artístico a Basílica de Mafra, entre outros, a re- 
modelação das capelas artísticas da Sé de Évora, 
de S. Roque, da Patriarcal de Lisboa, o Aque- 
duto das Águas Livres; assinalando a sua força 
e interpretação literárias subsistem a Biblioteca 
Rial do Paço da Ribeira, hoje transportada, a 
Academia Rial de História, e outras livrarias 
e academias; pelo lado scientífico fazem fé a 
fundação de arsenais, do Observatório Astronó- 
mico, da Fábrica da Pólvora, da Casa da Moe- 
da, etc, e outros monumentos. 

Não pode, por consequência, restar dúvida, 
mesmo no espírito de quem não admite a com- 
patibilidade do progresso com o fausto duma 
coroa fulgente, que neste reinado, as artes, as 
sciências e as letras apresentam um avanço e 
progresso evidentes. A arte tipográfica mereceu 
deste governo especial protecção e interesse, e é 
este o motivo único por que eu chamo para uma 
conferência gráfica um nome realengo, sociologi- 
camente mesquinho e apagado, visto, quási sem- 
pre, com imerecido ódio. Em 1707 o rei visitou na 



20 



Rua da Figueira, hoje Rua Anchieta, uma tipo- 
grafia, de Valentim da Costa Deslandes, que foi 
4.*^ avô de Venâncio Deslandes. Há quem con- 
teste a visita do rei à tipografia, julgando mais 
provável a ida ao paço do impressor e dos seus 
prelos. Fosse como fosse, nós, apresentando este 
facto, pretendemos apenas assinalar o interesse 
e o cuidado que despertou no monarca a indús- 
tria da tipografia. 

Um cronista da época, padre D. António Cae- 
tano de Sousa, fala numa sua obra de renome 
do auxílio dispensado pelo rei à arte tipográfica, 
e o falecido Dr. Sousa Viterbo escrevia em 1861^ 
Jio Jornal da Manhã, do Porto: 

A tipografia foi uma das artes que teve maior incremento 
110 reinado de D. JoãoV. Contribuiu principalmente para 
isto a fundação da Academia Rial de História (1720), cujas 
publicações traziam por assim dizer o selo de ostentação 
do nosso Rei Sol. E não foi só a tipografia como todas 
as artes relativas. Vieram então para Lisboa gravadores 
como Rocheford, Quilard, Debrie, cujos trabalhos adornam 
as obras daquela época. 

No elogio histórico do rei, Francisco Xavier 
da Sylva sustentou que ele mandou ir ao Paço 
a nobre arte de impressão, e que chegou a con- 
tratar no estrangeiro operários e artistas para 
virem auxiliar e adiantar os estudos gráficos, por- 
que reconheceu «serem eles o instrumento das 
sciências». Os documentos tipográficos da época, 
obras e trabalhos esparsos indicam claramente 
quanto vimos afirmando. Os elzevires usados en- 
tão, desenho aceito nr. generalidade e adoptado 
com frequência, apresenta um distanciado de 



21 



traço, uma nitidez de linhas, um exacto de pro- 
porções, a par duma nítida impressão e bom em- 
prego de tintas e de papel, que dão bem a nota do 
desenvolvimento gráfico português no séc. xviii. 
O rei D. José, pela mão possante e enérgica do 
seu grande primeiro ministro, adoptou e seguiu 
toda a obra do seu antecessor. A criação da Im- 
pressão Régia, que marca na história da tipo- 
grafia portuguesa um ponto luminoso e desta- 
cável, lançada por decreto de 24 de Dezembro de 
1768, é, em nossa opinião, obra premeditada e 
estabelecida in mente do Rei Magnânimo, Não é 
aqui lugar para defender semelhante tese. Já es- 
tudámos este assunto num trabalho a que nos 
dedicámos, há tempo, e que aguarda oportuni- 
dade de publicação. 

Dois anos antes da fundação da Impressão 
Régia, segundo uma comunicação que me foi feita 
pelo Sr. Gregório Fernandes, director interino 
das oficinas e armazéns da Imprensa Nacional, 
havia-se pretendido estabelecer no Colégio dos 
Nobres uma tipografia, sob a orientação técnica 
de Nicolau Pagliarini, mais tarde director da 
Impressão Régia. Um documento manuscrito, 
muito interessante e circunstanciado, referente 
a tal propósito, foi oferecido por um bibliógrafo 
ao Sr. Luís Derouet, actual administrador geral 
da Imprensa Nacional. 



A criação da Impressão Régia foi a realização 
prática do grande sonho artístico de D. João V. 
Pombal, num impulso vigoroso e enérgico, inspi- 



22 



rado nos salutares princípios da divulgação da 
instrução popular, pôs em execução esse tam 
vasto problema, imprimindo-lhe um carácter ar- 
tístico tam perfeito que ainda hoje, passados i5o 
anos, se sente vibrar nesta obra o pulso firme 
e vigoroso do ministro de D. José. 

Foi a necessidade instante de dar a conhecer 
ao povo as obras dos clássicos, que os impres- 
sores de então quási monopolizavam e vendiam 
por elevados preços, um dos factores mais pre- 
ponderantes para a fundação do estabelecimento 
gráfico do Estado, mas teve também grande in- 
fluência, é certo, a necessidade de fazer ingres- 
sar num estabelecimento próprio os trabalhos do 
tesouro, já então bastante rendosos para os in- 
dustriais, e que andavam dispersos por diversas 
oficinas gráficas privilegiadas, das quais os pro- 
prietários conservavam o título de impressores 
régios. 

O problema estava lançado; restava pô-lo em 
prática, e para isso adquiriu-se todo o material 
da oficina gráfica de Miguel Manescal da Costa, 
estabelecido nos monturos de S. Mamede, hoje, 
creio, Rua das Pedras Negras. Todo este material 
tipográfico, que compreendia caixas, cavaletes, 
tipo, etc, custou apenas 2:000^000 réis, e foi 
com isso que iniciou a sua laboração a oficina 
gráfica do Estado. 

Como nota diremos que actualmente o valor do 
material existente na Imprensa Nacional deverá 
orçar, cifra provável, por cerca de mil contos de 
réis. Feita a aquisição do material, levantava-se 
a dificuldade de edifício próprio para acomodar 



23 



tal instalação, e muito embora se andasse por essa 
época reconstruindo a cidade baixa, derruída pelo 
terramoto de lySò, o Marquês não conseguiu ar- 
ranjar casa com as condições necessárias para 
receber a Impressão Régia. 

O palácio dos Noronhas, situado na Cotovia, 
justamente no local oncje se ergue o actual edifí- 
cio da Imprensa, foi o alvo sobre que o grande es- 
tadista lançou as suas vistas, alugando-o aos seus 
proprietários pela renda anual de 5oo;2í:ooo réis. 

Do primitivo palácio já nada resta e apenas à 
esquerda do edifício actual se conservam a Rua 
e a Travessa do Noronha, como que sentinelas vi- 
gilantes dum património fidalgo já quási apagado. 

Instalada a Impressão Régia, faltava, porem, 
alguém com a energia e os conhecimentos técni- 
cos suficientes para a poder dirigir e encaminhar 
nos seus primeiros passos. Disso foi encarregado 
Miguel Manescal, e tam bem ou tam mal se houve 
esse tam distinto funcionário, com tanta decisão, 
carinho e amor o fez que, não será exagero dizê- 
-lo, enraizou profundamente este estabelecimento 
no organismo artístico da nacionalidade e cimen- 
tou com o seu esforço e dedicação os alicerces 
sobre que mais tarde se havia de erguer o ma- 
ravilhoso monumento artístico que é hoje a Im- 
prensa Nacional de Lisboa. 

Principiou então uma verdadeira faina, dando- 
se publicidade a um sem número de obras erudi- 
tas, como sejam as Décadas da Ásia, Comentários 
de Afonso de Albuquerque, Selecta grega e tan- 
tas outras, que hoje são raras e que naquela época 
constituíam a elite da literatura. 



24 

o Colégio dos Nobres, instituição erecta no 
local onde existe hoje a Faculdade de Sciências 
da Universidade de Lisboa, fechou, por decreto 
de 7 de Abril de 1769, contrato com a Impressão 
Régia para a publicação dos seus livros por um 
preço relativamente barato, e deve-se certamente 
a este facto o ter a instrução tomado maior in- 
cremento e ter-se propagado até as classes infe- 
riores. 

Teve este estabelecimento, anexa às suas ofi- 
cinas tipográficas, uma fábrica de fundição de 
letra, criada por decreto de 1732, a cargo da 
Junta do Comércio e que passara para a admi- 
nistração da Impressão Régia sob a direcção do 
francês Jean Villeneuve. Fundou-se também uma 
aula de gravura, que então se denominava abri- 
77iento de estampas, e que era dirigida por Car- 
neiro da Silva, um dos primeiros, senão o pri- 
meiro dos gravadores portugueses, que deixou o 
seu nome ligado a verdadeiras obras primas que 
ainda hoje honram sobremaneira este estabeleci- 
mento do Estado. 

Em Julho de 1769 foi anexada uma fábrica de 
cartas de jogar e papelões, indústria rendosa e 
privilegiada dessa época, dirigida mediante con- 
trato especial pelo genovês Lourenço Bolesio. 
Com estas três secções se pode dizer que ini- 
ciou a Impressão Régia a sua vida artística in- 
cluindo-se no organismo pátrio, sofrendo com êle 
os seus desastres, sendo, por assim dizer, o pulso 
em que qualquer historiador poderá observar cla- 
ramente os períodos áureos do nosso triunfo e os 
lancinantes e aflitivos momentos de todas as agi- 



2Z) 



tacões políticas que movimentaram, e em grande 
parte prepararam talvez, a decadência contempo- 
rânea da nacionalidade portuguesa. 

Morto Miguel Manescal sucedeu-lhe uma junta 
ou conferência composta por elementos muito 
heterogéneos, 6 encarregados da administração 
técnica e 4 da gerência literária. 

A falta de homogeneidade destes elementos 
tam diversos prejudicou grandemente, a nosso 
ver, o progresso artístico e económico do esta- 
belecimento. As administrações seguintes já de 
si curtas, e alem disso compostas de elementos 
muito vários, produziram também os seus de- 
sastrosos resultados. 

A já então Imprensa Nacional ressentiu-se da 
falta de uniformidade de vistas dos seus adminis- 
tradores, e a arte, se se pode dizer que não pa- 
ralisou completamente, sofreu decerto grande e 
profundo abalo. Só em i838, com a nomeação 
de Frederico Marecos para a gerência da Im- 
prensa, se começa a notar uma certa orientação 
mais clara e acertada. Procurando nas impren- 
sas oficiais estrangeiras os progressos das artes 
gráficas, Marecos pôde assim trazer para Por- 
tugal e introduzir na Imprensa as mais moder- 
nas reformas, que o seu espírito esclarecido e 
audaz tinha conseguido apreender lá fora. 

Como na Imprensa por este tempo ainda se 
imprimisse pelo sistema quási primitivo dos pre- 
los de madeira, Frederico Marecos levou o go- 
verno a mandar executar na Oficina de Artes e 
Ofícios o primeiro prelo de ferro que existiu na 



26 



Imprensa Nacional, e que custou ^2>2^6<^b réis. 
Não era, porem, nessa época a oficina tipográ- 
fica do Estado a que caminhava em Portugal na 
vanguarda do progresso, porque já em i835, na 
tipografia de Vicente Gonçalves Rio Tinto, exis- 
tiam prelos mecânicos em que se fazia a impres- 
são do Nacional, de então. No emtanto, durante 
este período administrativo e o que se lhe suce- 
deu, as artes gráficas em Portugal desenvolve- 
ram-se notoriamente na Imprensa. 

Foi introduzida a estereotipia e adquiriram-se 
também em Paris as primeiras notáveis máqui- 
nas de fundição. O primeiro prelo mecânico 
Gaveaux adquirido pelo Estado custou ii:6oo 
francos. O da casa de Rio Tinto foi mais tarde, 
em 1842, comprado também pela administração 
da Imprensa. Possuíam também por esse tempo 
oficinas tipográficas com prelos mecânicos os jor- 
nais Revolução de Setembro, Jornal do Comércio, 
Nação, a Tipografia Universal, a casa Castro 
& Irmão, etc, e no Porto o Jornal do Comér- 
cio, Nacional e Jornal do Porto. 

O aparecimento dos prelos mecânicos deter- 
minou um grande e ruidoso protesto por parte 
dos impressores, que se sentiam prejudicados 
com a concorrência que erradamente julgavam 
a máquina lhes poderia causar. Houve sempre 
este erro da parte do operário — de não querer 
ver nos inventos da mecânica um poderoso au- 
xílio à sciência e perfeição dos trabalhos indus- 
triais. Actualmente com as Linotfpes o mesmo 
caso se está dando, mas a experiência e o tempo, 
grandes e esclarecidos mestres, hão-de, com as 



^7 

suas práticas demonstrações, calar-lhes profun- 
damente no espírito. 

A indústria das cartas, que tinha sido muito 
rendosa porque o Estado reservava para si o 
privilégio de fabricação, quási que se extinguiu 
em 1844, quando esse privilégio foi quebrado 
e estabelecido o imposto sobre os produtos da 
indústria estrangeira. 

A litografia a dentro da Imprensa ficou de en- 
tão para cá com uma vida um pouco débil, de- 
vido a factores múltiplos de ordem vária, que 
não cabe no limite desta despretensiosa palestra 
estar a esmiuçar. 

Com a morte do último destes administrado- 
res. Firmo Marecos, em quem a Imprensa Na- 
cional perdeu um dedicado amigo e a arte um 
cultor valioso, começou a acentuar-se, não dire- 
mos já uma decadência, mas uma falta de energia 
para completar a obra iniciada com tanto ardor. 

Os processos políticos dos últimos vinte anos 
influíram desastrosamente nos destinos da Im- 
prensa e por certo preveríamos uma decadência 
próxima, se não sentíssemos pairar sobre ela 
como que um sopro de energia e boa vontade 
que parece disposta a fazer colocar a Imprensa 
ao nível das suas congéneres do estrangeiro, 
completando, por assim dizer, o pensamento no- 
bre e gigantesco do ministro de D. José. 

Demonstradas quais as causas preponderantes 
que determinaram a evolução e a decadência 
artística das artes gráficas na Imprensa Nacio- 
nal, resta provar agora como essa evolução e 



28 



essa decadência se relacionam com a economia 
do mesmo estabelecimento. 

Vai falar a linguagem dos números, a mais 
eloqiàente das linguagens, que com uma austeri- 
dade de juiz, implacável e recta, condena ou ab- 
solve, louva ou castiga. Quando o estado finan- 
ceiro é precário a arte definha e conseqijente- 
mente ressente-se todo o organismo artístico do 
estabelecimento. Mas o mais curioso e impor- 
tante é que muitas vezes esse desequilíbrio eco- 
nómico não provêm unicamente da falta de zelo 
ou incúria administrativa; é o resultado positivo, 
ou antes, a verdadeira síntese do estado finan- 
ceiro da nacionalidade. 

Assim, a história feita pelo Deve-Haver é quási 
sempre mais fiel, mais criteriosa e mais justa. 
Ela fala com o ardor dos tribunos populares, de 
palavra eloquente e altiva, pesa e cala no ânimo 
da posteridade, é, por assim dizer, o espectro 
da Justiça aparecendo a julgar os actos do pas- 
sado. E por meio desses importantes símbolos do 
pensamento, os algarismos, que procurarei fazer 
em parte a história económica da Imprensa. 

Em 1778, num dos seus períodos de maior 
prosperidade acusava uma receita de cerca de 
1 18 contos de réis com a despesa importantíssima 
de 65 contos de réis — e, portanto, com um saldo 
de 52 contos de ^-éis a favor. Isto demonstra 
claramente um óptimo período administrativo. 

De 1802 a 1808, quando Portugal esteve sob 
o jugo das águias napoleónicas, a Imprensa res- 
sente-se da decadência nacional e o saldo médio 
desses anos apenas atinge 2 contos de réis. 



^ 



^9 

Com a Constituição de 1S20 e a espécie de 
rejuvenescimento que se operou no espirito da 
nacionalidade, o estado financeiro da Imprensa 
melhora e a sua receita, que em 1821 tinha sido 
de 73 contos de réis, em 1822 foi de 83 contos 
de réis. 

Estas oscilações produziram-se sempre que 
qualquer grave situação afligia o espírito nacional, 
o toldava ou paralisava. Simplesmente, no seu 
mais áureo período artístico, isto c, quando a 
Imprensa atinge, por assim dizer, o mais elevado 
grau de perfeição, de i838-i8(34, ela apresenta 
nas suas estatísticas um deficit crescente, che- 
gando mesmo em i856 a atingir 22 contos de réis. 

Este facto, porem, é explicado pelas grandes 
somas despendidas com a compra de máquinas, 
material, etc, que a Imprensa se viu obrigada 
a adquirir. 

Cabe aqui, e muito a propósito, fazer notar 
a confusão da contabilidade burocrática que, di- 
manando das repartições do Estado, invadiu a 
Imprensa Nacional, destruindo a forma prática 
da escrita mercantil que Pombal tinha traçado, 
e que era mais própria, mais clara e adequada 
a um estabelecimento industrial desta natureza, 
com uma vida artística tam desenvolvida, que 
não cabe dentro do organismo defeitlioso e ana- 
crónico da escrita oficial. 

Não fecharemos este capítulo sem frisar bem 
a nossa opinião de que consideramos, como base 
imprescindível para o progresso artístico e eco- 
nómico do estabelecimento, uma autonomia com- 
pleta, que seja como que uma emancipação, base 



3o 



dum futuro ressurgimento. Assim como as mo- 
dernas leis da biologia reconhecem que o feto, 
mal adquire um determinado desenvolvimento, 
necessita tornar-se independente, criar vida pró- 
pria para poder progredir, assim também a Im- 
prensa, vivendo debaixo do domínio adminis- 
trativo do Estado, chegou a um tal ponto de 
progresso, em que essa protecção se torna peia 
e esse domínio prejudicial. 

E conveniente notar que a organização que o 
Conde de Oeiras havia decretado tinha uma base 
muito mais independente do que a que actual- 
mente rege a Imprensa Nacional, e os factos 
encarregam-se de provar o resultado importan- 
tíssimo dessa independência. 

Passados em revista os pontos mais interes- 
santes da história económica e artística do pri- 
meiro estabelecimento gráfico português, vou 
agora falar-vos um pouco da instrução do nosso 
operário gráfico e da influência da sua educação. 

Este ponto de vista é um dos mais curiosos, 
embora talvez o mais difícil de abordar de toda 
esta nossa palestra. 

O tipógrafo português contemporâneo não pos- 
sui aquele relativo grau de educação artística 
que seria para desejar. Não quere isto dizer que 
nos meios gráficos nacionais não existam verda- 
deiras intuições muito aproveitáveis, mas essas 
mesmas, se se patenteiam em algumas demons- 
trações, elas são tam pálidas e fracas que não 
chegam mesmo a constituir uma afirmação de 
talento. 



3i 



Influenciados pelo catálogo estrangeiro, que 
monopolizou o mercado nacional enchendo-o dos 
seus produtos, o tipógrafo português falho de 
educação elementar, muito principalmente no 
que respeita a desenho, não tendo muitas vezes 
a mínima noção de geometria, limita-se a copiar 
o que nesses catálogos mais o impressionou, 
com a agravante de lhes perder, quantas vezes, 
até o próprio traço artístico. 

A industria particular, puramente comercial, 
salvo muito raras excepções, não tendo em mira 
senão tirar juro certo do capital empregado, longe 
de estimular o artista a educar-se, corrompe-o, 
explora-o e lança-o numa sordidez que nós, hu- 
mildes obreiros gráficos, não podemos compreen- 
der nem admitir. 

Se o compositor porem, falho de estudo pre- 
liminar, não sente a linha, não tem educação 
estética suficiente que lhe dê a proporção e a 
elegância, o impressor a maior parte das vezes 
não tem o sentido artístico da cor, não lhe im- 
prime o tom, a luz, todas as niiances em suma, 
que são a graça, a elegância, a subtileza, que 
constituem a base principal dos maravilhosos tra- 
balhos estrangeiros que eles tanto admiram. 

Nesta espectativa criminosa, nesta paralisação 
de energia, é justo que haja alguém que incite, 
que desperte, que reúna quantas intuições des- 
prezadas, quantas tendências dispersas, para com 
esforço próprio que tanto dignificaria uma classe, 
que pelo seu grau de valor moral devia ser uma 
das mais importantes, conseguir congregar to- 
dos os elementos valiosos nesta cruzada de re- 



32 



nascença ariística que espíritos empreendedores 
parecem querer efectuar em Portugal. 

Para isso deveria, na nossa humilde opinião, 
fundar-se uma escola geral de artes gráficas, anexa 
ou não à Imprensa Nacional, onde a par dos 
conhecimentos elementares de todas as sciências 
e artes, especialmente artes decorativas, fosse 
ministrado o ensino prático de todas as manifes- 
tações das artes gráficas, como sejam gravura, 
com todas as suas derivadas, fundição, impressão, 
brochura, encadernação, composição, etc, e que 
se tornasse por assim dizer obrigatório que todo 
o artista gráfico para exercer a sua arte estivesse 
munido do diploma, passado por um júri compe- 
tente, e que demonstrasse perfeito conhecimento 
não só de todas as artes em geral, como em 
especial daquela a que se dedicasse. 

Era sem dúvida esta iniciativa um importan- 
tíssimo ponto de partida para o ressurgimento 
das artes gráficas no nosso país. 

A arte nas suas mil manifestações é ainda, e 
será sempre, um dos traços mais importantes que 
distingue o homem da animalidade, é a luz bri- 
lhante e clara para onde os espíritos lúcidos as- 
cendem numa ânsia de beleza e numa sede louca 
de perfeição, e, por isso, nós, ínfimas parcelas do 
grande organismo gráfico, não podemos deixar 
de quedar-nos, extasiados, perante esse imortal 
poema de arte que se chama — Imprensa. 



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